DISPUTA OU UNIãO DE GERAçõES?

A trajetória de Sidnei Oliveira é, ao mesmo tempo que curiosa, inspiradora: desde jovem, procurou ganhar experiência profissional baseando-se nos aprendizados que a vida lhe proporcionou. Começou sua jornada trabalhando como office-boy em uma agência bancária e, depois de se especializar em cursos acadêmicos na área de Marketing e Administração de Empresas, arriscou a sua primeira carreira no mercado financeiro. Ali, conseguiu desenvolver suas primeiras habilidades em liderança de equipes e desenvolvimento de produtos. Durante esse período, Sidnei passou a publicar os livros que escrevia sobre as temáticas que dominava – liderança e administração - e, assim, tornou-se palestrante de seminários e eventos em empresas.

Depois de acumular tantas experiências, Sidnei resolveu abrir o próprio empreendimento no ramo da Internet, em 1995. Ele sedimentou e implementou o conceito de atendimento personalizado online, através dos sites Achei! e Zeek! dos quais foi fundador e diretor geral até a venda da empresa para a StarMedia Networks. Após a negociação, ele passou por um período turbulento em sua vida que refletiu em uma leitura da própria carreira. Procurou ensinar o que sabia, baseando-se em sua trajetória precoce: abraçou a causa do jovem na realidade brasileira e, principalmente, a sua relação com o mercado de trabalho. Sidnei conseguiu abrir um campo que, até então, não era muito comentado na época, tornando-se especialista em temas como geração Y e choque de gerações. A sua habilidade na escrita trouxe à tona diversos livros que ganharam destaque nas prateleiras dos mais vendidos, como “Conectados, mas muito distraídos”; “Profissão do Futuro - Você está no jogo?” e as séries “Geração Y”.

Hoje, é presidente do Sidnei Oliveira & Associados, vice-presidente do Instituto Atlantis de preservação ambiental e membro do conselho do Fórum de Líderes Empresariais. Somado a isso, também prepara e desenvolve profissionais em liderança e sustentabilidade através da Kantu Educação Executiva, empresa própria onde realiza diversos trabalhos com mais de 100 mil profissionais em companhias como Vale, Petrobrás, Gerdau, Internacional Paper, Deloitte, entre outras.

Para ele, o choque de gerações sempre existiu: a atitude agitada da juventude diante da “não-atitude não-agitada” dos mais experientes, sempre representou um conflito. “Hoje, a nova geração busca priorizar três itens: a sua carreira, os seus relacionamentos e, por último, o seu estilo de vida. Com o advento das novas tecnologias, o jovem acaba incorporando tanto a sua vida profissional, quanto a pessoal no mundo digital, onde tudo acontece muito rápido. É o mundo do aqui e do agora e, assim, são milhares de estímulos respondidos. Junto com isso, vem a ansiedade e o imediatismo, emoções que eles também precisam aprender a lidar”, afirma Sidnei.

Segundo o autor, o jovem de hoje - que pode oscilar desde os 17 até os 30 anos - é o resultado de uma mudança cultural que vem sendo monitorada por grandes empresas desde o início dos anos 2000. “A nova geração tem um objetivo muito bem delimitado: trabalhar no que gosta e ser feliz. O ponto é que as empresas não estavam preparadas para isso, pois seguiam um sistema padrão no qual apenas treinava o funcionário para ser o mais produtivo possível”, diz.

O grande problema que enfrentamos nesse cenário é a concorrência: hoje, uma pessoa com 45 anos ainda é considerada jovem e, assim, não tem vontade de parar a sua vida profissional tão cedo. É desse jeito que nasce o choque, uma vez que o jovem entra na empresa oferecendo qualificação e vontade de crescer e, por outro lado, o veterano oferece a experiência. Experiência essa que não é ensinada aos jovens e, por isso, não os expõe a situações de liderança. O efeito colateral, a gente vê mais para frente: o jovem, que assumiu o antigo papel do líder veterano, não está preparado para exercer sua função. No curto prazo, há um aumento da rotatividade nas empresas, principalmente com os novatos que, por não se sentirem encorajados em seus desafios na empresa, migram para outro emprego. “Antigamente, o jovem começava a sua carreira sendo estimulado a formar um patrimônio sustentável para que, no futuro, pudesse ter uma velhice confortável. Hoje, ele já entra na empresa levando em conta a ideia de que não passará a sua vida toda ali, pois acredita que a sua felicidade depende somente dele mesmo e que o seu emprego é apenas um meio para alcançá-la mais rapidamente. Sendo assim, cria-se um novo modelo de comprometimento, no qual a felicidade do funcionário é independente do seu trabalho e da sua empresa”, ressalta. É por isso que Sidnei afirma que, hoje, nenhuma empresa conseguirá ser razoavelmente competitiva se ela não mantiver uma relação mais próxima e, até mesmo, “educadora” com o colaborador. Grandes gestores e setores de recrutamento passaram a entender que a felicidade do jovem depende somente de suas escolhas e, por isso, buscam promover o desenvolvimento da maturidade que prepara o indivíduo para a vida pessoal e profissional.

Se o mercado não entender esse movimento haverá sempre um círculo vicioso em que os veteranos irão dominar determinadas posições e, também, posturas, além de o ambiente se tornar predominantemente composto por pessoas mais velhas. Jovens são criativos e inovadores, por isso, a sociedade vem fazendo um enorme esforço para deixá-los mais confortáveis em seu local de trabalho. Porém, muitas vezes, eles não sabem lidar com situações que fogem da sua zona de conforto. Segundo o autor, o jovem precisa parar de acreditar que haverá um momento certo e favorável para ele tomar suas decisões e aprender que esse momento perfeito não chegará nunca. O que faz um sonho dar certo é, apenas, acreditar em si mesmo e ter coragem para entrar no jogo.

Para Sidnei, essa geração ainda não sabe lidar com frustrações e acredita que tudo irá conspirar ao seu favor, uma vez que foi sempre superprotegida por seus pais, que buscaram projetar suas expectativas em seus filhos. “Não adianta querer evitar o sofrimento, ele faz parte de um processo de amadurecimento onde a cicatriz é sempre mais educativa do que qualquer outra lição.” Os jovens chegaram a um ponto em que foram poupados demasiadamente de tudo e, assim, o “ir além” passou a significar medo de errar. “Por mais qualificado que o jovem possa ser, muitas vezes ele não sabe lidar com a pressão imposta no seu dia a dia e, por isso, nasce uma sensação de angústia e de fracasso em relação às metas que precisava cumprir. É exatamente nesse momento que ele se compara aos seus pais, achando que não avançou o quanto poderia ter avançado e, assim, não se sentindo realizado em suas escolhas.”

As empresas não estão preparadas para lidar com esse conflito, uma vez que, em sua maioria, os líderes veteranos são pessoas com outros comportamentos. Quando o jovem chega na empresa, esses líderes tentam implementar ferramentas que eles estudaram e desenvolveram durante toda a sua jornada profissional. “Pode-se dizer que o sistema de promoção é um bom exemplo: hoje, o jovem não é promovido com tanta velocidade, primeiro pelo fato que não há tanta vaga liberada no mercado e, segundo, porque há uma maior exigência das qualificações desse jovem para subir de posição. Logo, essa ferramenta já não se enquadra tão bem nos dias atuais como se enquadrava antigamente. Assim, ele acaba se desanimando com muita rapidez e, mais uma vez, abandonando o desafio quando, na verdade, o primeiro passo deveria ser conquistar a confiança de um líder mais velho. Demonstrar que não está ali para competir é a principal forma de ser submetido à competência que ele está querendo adquirir.”

Fica nítido um grande abismo entre essas duas gerações. É preciso que as empresas se atualizem desse novo cenário e saibam construir uma ponte que conecte jovens e veteranos, desde sua comunicação até sua cultura. Essa é a única forma capaz de criar uma ajuda mútua entre os dois grupos. Os mais experientes devem adotar a postura de mentor e repassar todo o conhecimento tácito aos mais jovens. Afinal, precisamos ponderar sobre a necessidade de formar sucessores. Por outro lado, os mais jovens precisam compreender que leva-se tempo para alcançar determinada posição de destaque em uma empresa. Sonhar não dá trabalho mas, realizar o sonho, sim! É como no futebol: o importante é confiar na performance e nunca deixar o medo da bola eliminar os participantes do jogo. Pode ter certeza que se houver persistência, mesmo com alguns dribles que a vida pode dar, a taça será levantada ao final do campeonato.